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sábado, 5 de janeiro de 2013

Gosto muito de ti


Gosto muito de ti!

A espera estava a ser longa. Já tinha examinado cirurgicamente cada pormenor da arte sacra ali exposta enquanto ansiava por ti junto ao altar-mor daquela antiga capela onde sempre sonharas casar. Como estarás tu hoje? Como será o teu vestido, o teu véu? São coisas de somenos, bem sei, mas os nervos que se apossaram de mim conduziram-me para detalhes que outrora negligenciava. Importante agora era saber quando tu chegarias. E se tivesses mudado de ideias?

Gosto muito de ti!

De repente, um frenesim espevitou os presentes e um sussurro crescente varreu de ponta a ponta aquele local sagrado.

Ao rufar do meu coração rompeste resplandecente o clarão etéreo que me ofuscava. Quando os reflexos do sol pararam de me encandear consegui visualizar-te em todo o teu esplendor. Estavas linda ali à porta. Linda como sempre! Pouco a pouco, de passo curto, caminhavas na minha direcção. Passos leves, passos graciosos, como que passeando sobre nuvens. Vinhas só. O teu pai falecera poucos anos antes e eu sei o quão doloroso está a ser para ti não o ter ali ao teu lado, de braço dado. Talvez por isso, uma pequena e fina lágrima escorre-te pelo rosto, embora impotente para abalar a beleza e a quietude do teu rosto.

Gosto muito de ti!


Terei sido trucidado pela emoção mas realmente a cerimónia esgotou-se num simples estalar de dedos. E era isso que eu precisava também: dum estalar de dedos que me certificasse que não estava a sonhar.

Chegou, então, o momento das fotos:
- "Agora só os noivos. Os pais e padrinhos que se afastem". - Retirei-me mecanicamente como soldado disciplinado à voz do general das películas.

(Gosto muito de ti! Mas… eu não te amo… Consegues compreender? Só que eu… eu não queria perder a tua amizade. Nunca!).

… A festa já ia longa. Na pista de dança improvisada arrastavam-se, ainda, meia dúzia de casais. Saí e fui até ao alpendre para fumar o puro oferecido pelo noivo enquanto lá dentro a banda contratada se entretinha a assassinar a canção dos Per7ume com a participação do Rui (Veloso):

"… a foto onde eu nãooooo eentrei…"

Yellow McGregor, Dezembro de 2009

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Natal

E, porém, naquele domingo aconteceu. Mataram o Pai Natal!

Sem dó nem compaixão, fuzilado por uma homilia inesperada, aquele bondoso homem foi liminarmente exterminado pelo presbítero e, com ele, todos os inofensivos sonhos e doce magia que dão cor a esta quadra.

Assim foi. Abandonado o ambão, onde professou as indulgentes palavras do evangelho, sentenciava:

“… pois o pai natal não existe…”!!!

Perguntei-me como poderia ser possível… Bastava simplesmente expulsar os vendilhões do templo, porque nem tudo é eivado pelo espírito mercantilista.

Mas não. Embora ordenado em tão canónico cargo ignorou, com despudor, um dos frutos do Monte Horeb: o quinto preceito do Decálogo.

- “Não matarás”!

(… valha-nos, agora, o Coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes).

Imagem de autor desconhecido, retirada da net.

domingo, 4 de novembro de 2012

(...)

Apenas o silêncio.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Novembro

Porque já é novembro...
... Sim, Luís (de Sttau Monteiro): Quero agarrar o verão, quero agarrar o verão.

sábado, 28 de julho de 2012

Por quem não esqueci

À noite, calam-se os silêncios...
... e a alma ilumina-se com um sinal de ti.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Sei?


Gritando o meu silêncio na nossa voz calada...

(E o silêncio fica imenso sem você).

terça-feira, 1 de maio de 2012

Não se ama sozinho


Bem sei que “Era a Crónica de Uma Morte Anunciada” mas ia contra “A Ordem Natural das Coisas” e, por isso, estava “À Espera de um Milagre”, alimentando-me de “Grandes Esperanças”. Eu pedia-te: “Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura” mas tu… tu “Morreste-me”; não podias… tu “Fazes-me Falta”!...

Fiquei à “Deriva” e fugi rumo àquela “Montanha Mágica”, para um “Exílio Perturbado”, onde cultivei “As Vinhas da Ira”. Lá seríamos apenas nós dois, dois “Corações em Silêncio” porque “Quem Ama Acredita” e eu queria ficar a sós com “Um Amor Para Recordar”. Meu Deus, não existe “Nenhum Olhar” como o teu!
Quis apenas “Viver Para Contar” a nossa história e escrever as “Páginas do Livro do Desassossego”. Talvez o descrevam, um dia, como “O Manuscrito de um Louco e Outras Histórias” porque comecei de facto a ensandecer. Por vezes perguntava: “Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?” e ficava à espera pel’ “A Explicação dos Pássaros”… continuando assim “Eu Hei-de Amar Uma Pedra”…

(… não sei “Por Quem os Sinos Dobram” porque “Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores” “O Sol Também Se Levanta” mas é de lá que oiço “A Balada da Praia dos Cães” e me embalo com as “Canções da Inocência/ Canções do Exílio”…)

Passaram-se anos? Quantos? Não sei? Pel’ “A Soma dos Dias” talvez “Cem Anos de Solidão”. Sei que estou perto do meu “Adeus às Armas”. Mas quando partir gostaria que nos recordassem… a ti…como “A Menina que Roubava Gargalhadas” e a mim… como “ O Velho Que Lia Romances de Amor”.
Fev/2010


Mike Fay in Minkebe Forest, Congo, 2000
PHOTOGRAPH BY MICHAEL NICHOLS