Páginas

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A minha Deolinda


                                  Imagem de autor desconhecido, retirada da net.


Com um aperto no coração direi que uma história assim tão bonita não pode ter acabado hoje! Certamente perdurará numa outra dimensão, num outro patamar:


« Um conto baseado em factos reais e familiares e nem os nomes poderia manter sob privacidade…

- “Merda!...”
Deu um salto da cama e num virote começou-se a vestir. - “Tenho que me ir já embora. Tenho que ir ter com a minha Deolinda.”
- “Mas Joaquim…”
- “Deixa-te de “mas”, mulher. Tenho mesmo que ir.”
O seu ar era de pura consternação. Como podia estar ali àquela hora?! Mas… e que horas seriam?! Um suor nervoso escorria pelas rugas que lhe talhavam a cara. – “Desculpa, mas tenho a minha Deolinda à minha espera.” - A dupla recorrência à locução “minha” não era em vão: a Deolinda era a sua vida… toda a expressão da sua vida.
- “Oh Joaquim, não vês que…”
Mas Joaquim já não via nada… melhor, ele só via a imagem da sua doce Deolinda. Apesar de ambos já terem entrado no Outono da vida, o tempo não fora impiedoso: ainda mantinham a beleza com que foram agraciados enquanto jovens.
- “Tenho mesmo que ir. Tenho que ir para a minha casa ter com a minha Deolinda.” - E cada vez que pronunciava no nome dela um brilho especial acendia-se naqueles bonitos olhos azuis.
- “Mas, querido, esta é a tua casa e eu sou a tua Deolinda, amor!...”
Uma lágrima começou a escorrer pela face daquela mulher. Este episódio tornara-se recorrente. Passou-se uma vida inteira e, apesar daquela maldita doença (leia-se Alzheimer), o seu marido ainda mantinha a chama que sempre abençoara aquela união e, assim, um misto de tristeza e felicidade temperou aquela gota que lhe procurava lavar a alma.» ( YellowMcGregor OUT2009)

sábado, 30 de novembro de 2013

Sempre

                                Imagem de autor desconhecido, retirada da net.


Ei, onde tens estado?
Para além do meu pensamento,
Para lá do meu passado.
Tu sabes, sempre soubeste,
Não é uma questão de tempo
(Ele nem sequer está do nosso lado).

Ei, não fiques aí parado (a),
Vem, dá-me um abraço
E diz-me, mesmo que calado (a):
Que o aqui, presente, agora
É apenas um interlúdio
Para um sempre viver afora.

Ei, onde tens estado?
Para além do meu pensamento,
Para lá do meu passado.


Yellow McGregor, 30Nov2013

sábado, 26 de outubro de 2013

Palavras


                               Imagem de autor desconhecido, retirada da net.

Tantas palavras preparadas
Alinhadas
Prontas a declarar
Mas envergonhadas
Teimam em ficar caladas
Tantas palavras perdidas
Escondidas
Reprimidas
Que se pelam para serem ouvidas
Enlouquecidas
Tantas palavras guardadas
Desperdiçadas
Palavras apaixonadas
Enternecidas
Mas que acabarão esquecidas
Tantas, tantas palavras

Yellow McGregor, OUT2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Vida

Miguel Esteves Cardoso


    Estas palavras - entre outras que escreveu na altura - nasceram certamente por entre lágrimas, choradas ou só sentidas, demonstrando inequivocamente que somos pequeninos demais nesta vida, por entre a qual, nos encontramos de passagem.
   No meu dia-a-dia não profiro o “vernáculo” muitas vezes usado e abusado pelo MEC. Não faz parte do meu léxico. Fica mal na maioria das vezes, na maioria das pessoas. Com o MEC é diferente. Ganha outro encanto. Como o compreendo. O “Amor é Fodido”. E tal como ele disse, aquando do lançamento do seu último livro:
"A vida é má e imprevisível. É uma puta e não se percebe o critério, mas ao mesmo tempo é linda". 
Bem verdade! … 'Como é Linda a Puta da Vida'!


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Saudade



Foto minha


Um dia, ela partiu. Num pretérito que se queria imperfeito.

Resta-me conjugar
No presente e para sempre futuro
O verbo Saudade

terça-feira, 4 de junho de 2013

Se...


Poderia
    Deveria
        Como seria?


sexta-feira, 3 de maio de 2013

Um Grão de Areia

Imagem de autor desconhecido, retirada da net.


Um dia destes fui à praia. Enquanto caminhava de pés descalços sobre a areia, reencontrei um grão com que brincava quando criança.

Agachei-me.

Havia lá muitos grãos de areia. Uns mais translúcidos, outros mais dourados, uns mais pequenos e outros de tamanho de calhau menor. Mas eu sabia que era precisamente aquele o grão com que eu brincava. Também ele me reconheceu. Recordou-se daquela criança envergonhada e naif que era capaz de passar tardes inteiras entretido a observar as formigas na varanda da sua casa – “só as pretas. As vermelhas, não! São más.” – sem que os seus pais se recordassem da sua condição de pais.

Rejubilei. O grão de areia lembrava-se das estradas que eu construí, as pontes que ergui, os castelos que criei… inclusivamente aquela vez que com ele finalizei, inocentemente, o seio disfarçado de concha, duma sereia feita de areia molhada….

Peguei nele, fixei-lhe o meu olhar e chorei… eu já não sabia como brincar com aquele grão de areia!...  
Yellow McGregor, Oct2009