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quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Apito do Comboio

Era um final de tarde igual a tantos outros finais de tarde.
Lá longe, escuto o apito do comboio que transportará, para os subúrbios, homens e mulheres que trabalham aqui na capital.
Olho para dois idosos que jogam uma partida de xadrez numa mesa deste jardim.
Eles, imóveis, pensam na próxima jogada a executar… fiquei como eles… estático… a pensar…

Rei
Serei eu seu rei? O alvo… o objectivo… o objecto do seu desejo? A peça – chave do seu jogo? O verdadeiro soberano do seu coração?

Bispo
Serei seu confessor, confidente, ouvinte? O pastor da sua doce alma? A peça que fielmente se coloca ao seu lado?

Torre
Sim. Gostaria de ser como uma torre. Ser a fortaleza que a protege; a muralha onde ela se sentirá sempre segura. Alto e Forte. O monumento que ela admirará fascinada.

Cavalo
Poderia ser seu cavalo, branco e majestoso. E poder levá-la a passear pelos prados e pradarias do nosso contentamento…

Peão
"Tu não passas de um mero peão. És mais um entre muitos outros. Serás movimentado ao seu bel-prazer. Serás colocado estrategicamente onde ela quiser te colocar e serás sacrificado assim que ela não precisar de ti. Tu és um Zé-Ninguém."

Naquele final de tarde ao escutar o comboio que lá longe apitava para levar para os subúrbios o homem e a mulher que trabalham na grande cidade apercebi-me o quanto eu era pequeno.
Naquele final de tarde, compreendi que tardei a compreender o que obviamente era óbvio: Não sou nem serei de facto o rei para aquela Rainha.
Yellow McGregor, Novembro de 2009
 
 

Imagem de autor desconhecido retirada da net.


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fragmentos

Apanhou a beata acesa do chão, deu uma passa e pendurou-se no eléctrico que haveria de cruzar as colinas de Lisboa para o levar até ao seu trabalho. Manuel tinha doze anos e calçava uns sapatos dois números acima do seu. Era uma fortuna poder proteger agora os seus pés que em muitos invernos descalços atravessaram a serra de Arga para que na escola primária comum conseguisse tirar a 4ª classe que Deus tem.

Chegado à taberna, onde labutava, serviu o vinho morangueiro em malgas – tal e qual como no seu berde Minho – aos clientes provindos na maioria da sua aldeia natal. O ambiente da tasca tresandava a carapaus de escabeche de há três dias e os ovos cozidos trajados de vermelho equilibravam-se em pé como soldados numa parada feita de sal sem qualquer segredo de Colombo. Naquele dia, porém, teve um bafejo de sorte porque um par de “bifes” entrara no estabelecimento e conseguiu cobrar o dobro dos tostões que valiam as sandes de presunto e as duas garrafas de laranjada: no final do mês, já podia mandar mais qualquer coisita à sua mãezinha.

Esta é parte da infância que o Manuel nunca teve.
Esta é parte da história duma infância que Manuel nunca alimentou.
Fazem-me falta todas as histórias que nunca ouvi…
 
Yellow Mcgregor Jul2010
 
Imagem de autor desconhecido retirada da net. Créditos inscritos na própria imagem (?).

Flower in spring

Love breaks the wings of a butterfly on a wheel...
... Love will heal the wings of a butterfly on a wheel.



quinta-feira, 5 de abril de 2012

Num outro lugar

Mote: o belo poema "Terror de te Amar", da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen

Perdoa-me porque quase te amei aqui.
Teu mundo, nosso mundo,
Não pode ser um lugar imundo;
Um lugar qualquer.
Teu lugar é meu lugar.
Teu amanhecer, meu madrugar.
Não basta pois apaixonar
Há que criar:
O teu lugar, o nosso lugar.
Crio pois um poema para ti
E perdoa-me…
Porque quase te amei aqui.

Yellow McGregor, abril 2012

Imagem de autor desconhecido, retirada da net

Growing old with you

Almost There...
that's not enough.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Porque cantam os pássaros no cemitério?

Porque cantam os pássaros no cemitério?
N. 17-01-1989 F.20-12-2005
N.21-02-1997 F.17-06-2006
N.10-04-2001 F.10-08-2010
N.20-07-1987 F.04-04-2007
E tantas, tantas, tantas jovens flores,
que mal brotaram, cedo murcharam,
germinando doces saudades e amargas dores.
Que raio de profano Sagrado Mistério:
Porque cantam pássaros no cemitério?

Yellow McGregor, março de 2012

Imagem de autor desconhecido, retirada da net