Páginas

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Apito do Comboio

Era um final de tarde igual a tantos outros finais de tarde.
Lá longe, escuto o apito do comboio que transportará, para os subúrbios, homens e mulheres que trabalham aqui na capital.
Olho para dois idosos que jogam uma partida de xadrez numa mesa deste jardim.
Eles, imóveis, pensam na próxima jogada a executar… fiquei como eles… estático… a pensar…

Rei
Serei eu seu rei? O alvo… o objectivo… o objecto do seu desejo? A peça – chave do seu jogo? O verdadeiro soberano do seu coração?

Bispo
Serei seu confessor, confidente, ouvinte? O pastor da sua doce alma? A peça que fielmente se coloca ao seu lado?

Torre
Sim. Gostaria de ser como uma torre. Ser a fortaleza que a protege; a muralha onde ela se sentirá sempre segura. Alto e Forte. O monumento que ela admirará fascinada.

Cavalo
Poderia ser seu cavalo, branco e majestoso. E poder levá-la a passear pelos prados e pradarias do nosso contentamento…

Peão
"Tu não passas de um mero peão. És mais um entre muitos outros. Serás movimentado ao seu bel-prazer. Serás colocado estrategicamente onde ela quiser te colocar e serás sacrificado assim que ela não precisar de ti. Tu és um Zé-Ninguém."

Naquele final de tarde ao escutar o comboio que lá longe apitava para levar para os subúrbios o homem e a mulher que trabalham na grande cidade apercebi-me o quanto eu era pequeno.
Naquele final de tarde, compreendi que tardei a compreender o que obviamente era óbvio: Não sou nem serei de facto o rei para aquela Rainha.
Yellow McGregor, Novembro de 2009
 
 

Imagem de autor desconhecido retirada da net.


3 comentários:

  1. É preciso astúcia. É preciso calma para jogar. Uma precipitação, pode ser fatal.

    Kiss ;)

    ResponderEliminar
  2. Para além de ser um grande jogo, há que ser encarada com muita inteligência mas com a sensibilidade do coração.

    Lindo texto. Adorei!

    Chuvinha de beijos xxx

    ResponderEliminar