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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Olha, um bom ano!


                                     Imagem de autor desconhecido, retirada da net.

    Sempre existiram filhos e enteados, a gata borralheira, o patinho feio. E até o irmão do filho pródigo, coitado, mais um pobre desafortunado das estórias que nos contam.
    De facto, ele há quem deseje um bom-dia, um excelente ano ou, pura simplesmente, uma boa semana de trabalho. E não há mudança de século - para não falar de milénio - que não se comemore. Mas… e o mês? Bem se pode esticar ou encolher que ninguém lhe liga: não há festinha nem votos de bem-aventuranças.
    Confesso que foi necessário passar algumas décadas por mim para que eu reparasse nisso. Décadas… olha, outra. Essa também é uma filha da… quela senhora que ninguém liga. Tssst. Coisas.

 Y McG, 2Jan2012

UM BOM MÊS DE JANEIRO PARA TODOS VÓS E... JÁ AGORA, UM BOM 2014 :-)


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Merry Christmas


Tantos desejos e promessas se fazem nesta quadra festiva. Talvez bastassem os mais simples gestos e comportamentos.

Merry Christmas and Don't Fight Tonight
 :-)


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Promessa

                                Pendennis Castle, Falmouth, Cornwall

A aproximação foi feita à bolina cerrada e o vento ameaçava romper cada vez mais as velas sujas e gastas do veleiro enquanto lá no alto, planando num céu coberto e cinzento, um bando de gaivotas recebeu aquele navegador solitário com um coro ensurdecedor confirmando, assim, o temporal que se adivinhava.
Passada a última espia para a terra, John saltou de imediato para o cais, afundou o seu velho boné de marinheiro na cabeça e de passos largos subiu pela Arwenack Street. Pelo caminho, com destino certo, parou no pub do velho Sam  que, logo quando o viu, exclamou:
- Amigo John, bons e agrestes ventos te trouxeram de volta! Quanto tempo se passou? Quatro, cinco anos?...
- Quatro anos, sete meses e dezoito dias, para ser mais preciso - respondeu, embora estivesse sem vontade alguma para conversar. Enquanto bebia sofregamente a Guinness, confidenciou que iria até ao castelo Pendennis.
- Ninguém deve estar por lá, homem de Deus. Já viste o mau tempo que se está a pôr?
Mas John sabia que ele estava enganado. Alguém estaria lá à sua espera. Saiu do pub, cruzou as ruas de Falmouth, subiu pela Castle Drive e ao chegar lá ao topo, o longo e enorme tapete de relva verde parecia estender-se para o receber. Ao fundo, perto do castelo, vislumbrou as costas de uma delicada figura feminina, sentada numa manta alva, com uns longos cabelos ruivos a esvoaçarem ao vento. Quando se aproximou, ela virou-se e acolheu-o com um largo sorriso desenhado numa face bonita e levemente sardenta:
- Eu sabia que voltarias!
-Claro que sim, Pat. A viagem foi longa mas passei por todos os locais que ilustraram as histórias que te contei quando eras mais pequena: As ilhas de Galápagos, Madagáscar, os mares das Caraíbas…
- Então essa argola de ouro que estás a usar na orelha esquerda…
- Sim, Pat, como na história do Edward, o pirata, também eu passei pelo cabo Horn à vela. Atlântico para o Pacífico, obviamente. Vês esta cicatriz aqui? Ganhei-a numa disputa, há dois anos.
E embora o seu rosto revelasse um forte cansaço, não deixou de contar, animada e pormenorizadamente, todas as suas façanhas destes últimos anos. A tarde, entretanto, ia longa e as primeiras gotas começavam a cair.
- Papá, tu és um homem de palavra. Vem!
Levantaram-se ambos e caminharam serenamente, lado a lado, em silêncio. Chegados à beira da característica encosta alta e escarpada da Cornualha, John abriu os braços e, sem hesitação, mergulhou naqueles aguçados rochedos que violentamente o acolheram.

Finalmente poderia repousar em paz, junto da sua doce e saudosa princesa.

Yellow McGregor, NOV2009


domingo, 8 de dezembro de 2013

Medo de amar.




Perdoa-me porque quase te amei aqui.
Teu mundo, nosso mundo,
Não pode ser um lugar imundo;
Um lugar qualquer.
Teu lugar é meu lugar.
Teu amanhecer, meu madrugar.
Não basta pois apaixonar
Há que criar:
O teu lugar, o nosso lugar.
Crio pois um poema para ti
E perdoa-me…
Porque quase te amei aqui.


(Yellow Mcgregor Jun2012)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A minha Deolinda


                                  Imagem de autor desconhecido, retirada da net.


Com um aperto no coração direi que uma história assim tão bonita não pode ter acabado hoje! Certamente perdurará numa outra dimensão, num outro patamar:


« Um conto baseado em factos reais e familiares e nem os nomes poderia manter sob privacidade…

- “Merda!...”
Deu um salto da cama e num virote começou-se a vestir. - “Tenho que me ir já embora. Tenho que ir ter com a minha Deolinda.”
- “Mas Joaquim…”
- “Deixa-te de “mas”, mulher. Tenho mesmo que ir.”
O seu ar era de pura consternação. Como podia estar ali àquela hora?! Mas… e que horas seriam?! Um suor nervoso escorria pelas rugas que lhe talhavam a cara. – “Desculpa, mas tenho a minha Deolinda à minha espera.” - A dupla recorrência à locução “minha” não era em vão: a Deolinda era a sua vida… toda a expressão da sua vida.
- “Oh Joaquim, não vês que…”
Mas Joaquim já não via nada… melhor, ele só via a imagem da sua doce Deolinda. Apesar de ambos já terem entrado no Outono da vida, o tempo não fora impiedoso: ainda mantinham a beleza com que foram agraciados enquanto jovens.
- “Tenho mesmo que ir. Tenho que ir para a minha casa ter com a minha Deolinda.” - E cada vez que pronunciava no nome dela um brilho especial acendia-se naqueles bonitos olhos azuis.
- “Mas, querido, esta é a tua casa e eu sou a tua Deolinda, amor!...”
Uma lágrima começou a escorrer pela face daquela mulher. Este episódio tornara-se recorrente. Passou-se uma vida inteira e, apesar daquela maldita doença (leia-se Alzheimer), o seu marido ainda mantinha a chama que sempre abençoara aquela união e, assim, um misto de tristeza e felicidade temperou aquela gota que lhe procurava lavar a alma.» ( YellowMcGregor OUT2009)