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segunda-feira, 9 de abril de 2012

Fragmentos

Apanhou a beata acesa do chão, deu uma passa e pendurou-se no eléctrico que haveria de cruzar as colinas de Lisboa para o levar até ao seu trabalho. Manuel tinha doze anos e calçava uns sapatos dois números acima do seu. Era uma fortuna poder proteger agora os seus pés que em muitos invernos descalços atravessaram a serra de Arga para que na escola primária comum conseguisse tirar a 4ª classe que Deus tem.

Chegado à taberna, onde labutava, serviu o vinho morangueiro em malgas – tal e qual como no seu berde Minho – aos clientes provindos na maioria da sua aldeia natal. O ambiente da tasca tresandava a carapaus de escabeche de há três dias e os ovos cozidos trajados de vermelho equilibravam-se em pé como soldados numa parada feita de sal sem qualquer segredo de Colombo. Naquele dia, porém, teve um bafejo de sorte porque um par de “bifes” entrara no estabelecimento e conseguiu cobrar o dobro dos tostões que valiam as sandes de presunto e as duas garrafas de laranjada: no final do mês, já podia mandar mais qualquer coisita à sua mãezinha.

Esta é parte da infância que o Manuel nunca teve.
Esta é parte da história duma infância que Manuel nunca alimentou.
Fazem-me falta todas as histórias que nunca ouvi…
 
Yellow Mcgregor Jul2010
 
Imagem de autor desconhecido retirada da net. Créditos inscritos na própria imagem (?).

3 comentários:

  1. Mais um bonito texto, com alma, diga-se..

    1 beijinho

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  2. Hoje é a minha vez de comentar: A capacidade de criar histórias de imaginar alimenta-nos a vida. Obrigada

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